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Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass em relatório sobre acidente de 2024

Cultura de informalidade fez com que pilotos não relatassem panes em diários de bordo O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cen...

Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass em relatório sobre acidente de 2024
Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass em relatório sobre acidente de 2024 (Foto: Reprodução)

Cultura de informalidade fez com que pilotos não relatassem panes em diários de bordo O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) afirmou nesta quinta-feira (23) que a Voepass tinha uma "cultura de normalização de desvios" em condutas operacionais da empresa. A declaração foi dada pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador do Cenipa, durante a apresentação do relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), em acidente que matou 62 pessoas em agosto de 2024. O g1 pediu um posicionamento à Voepass e aguarda retorno. LEIA TAMBÉM: Avião da Voepass que caiu não poderia ter decolado, aponta Cenipa Acidente Voepass: Cenipa cita conversas pessoais de pilotos durante voo e 'esquecimento' de acionar sistema de degelo Segundo Fróes, entre as irregularidades constatadas durante as investigações com voos anteriores ao do acidente, foi constatado, por exemplo, que pilotos e mecânicos deixavam de relatar em diários de bordo problemas em aeronaves e que auxiliares de mecânicos atuavam sem supervisão dos mecânicos. "Nós temos uma cultura organizacional de normalização de desvios dentro do operador. Essa normalização de desvios vem de uma cultura de informalidade, em que pilotos e mecânicos não relatavam as panes na aeronave em diário de bordo com a finalidade de que essa aeronave pudesse voar no dia seguinte", afirma Fróes. Além disso, o Cenipa apontou que equipes de manutenção tinham o costume de reparar aviões com componentes de outra aeronave também em pane ou até mesmo usar componentes que já estavam com falha. "O que acontecia era que havia registros nos diários de bordo da aeronave que colocava como feito um check operacional daquele sistema em pane e que o check operacional tinha passado. Só que no dia seguinte, quando a aeronave decolava, nós vimos registros da mesma pane reincidentemente naquela aeronave", destacou o tenente-coronel. Avião que caiu em Vinhedo Reprodução/TV Globo O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. Os investigadores analisaram os conteúdos das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo) e das condições meteorológicas registradas no dia do acidente. Também realizaram exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol. Em agosto de 2024, um mês depois do acidente, o Cenipa divulgou um relatório preliminar que já apontava que, menos de dois minutos antes de o ATR cair, um alerta na cabine avisou a tripulação que o gelo prejudicava o desempenho da aeronave e que os pilotos comentaram sobre um problema no sistema antigelo logo no início do voo. Relembre aqui. Avião não poderia ter decolado O avião da Voepass que caiu em Vinhedo não poderia ter decolado em horário com previsão de chuva porque tinha uma falha no sistema de limpador de para-brisa, apontou o Cenipa. "A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", disse Fróes. "Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", completou. Falhas no sistema de degelo Cenipa divulga resultado final da investigação sobre acidente com avião da Voepass em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 O avião também apresentou falhas no sistema de degelo das asas em dois voos na véspera da queda, mas a tripulação responsável não registrou em diário de bordo, apontou o tenente-coronel. Fróes afirmou que, em voo na véspera da queda, o avião decolou de Guarulhos com destino a Ribeirão Preto e teve uma falha no sistema responsável por eliminar o gelo acumulado nas asas. Segundo ele, a tripulação, que não era a mesma do voo que caiu, não reportou isso em diário de bordo. O que foi analisado pelo Cenipa? Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave. ➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo); reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Revisão internacional Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi analisado: pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500; e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave. O relatório aponta culpados? Não. A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e busca identificar os fatores que contribuíram para o acidente, além de emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação. O relatório não define responsabilidades civis nem criminais. Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). Divulgação/FAB Investigação criminal também está na reta final Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF. As conversas eram aguardadas porque poderiam ajudar a esclarecer os momentos finais do voo, incluindo se os pilotos comentaram ou acionaram o sistema de degelo — uma das hipóteses investigadas desde o acidente. Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos. Ação judicial Após a conclusão do inquérito da PF, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento. A intenção é buscar a responsabilização de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que tenham contribuído, por ação ou omissão, para a tragédia. Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 Relembre o acidente O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. O que diz a Voepass Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" da história da companhia e disse seguir prestando apoio psicológico às famílias das vítimas. A empresa declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas